sexta-feira, 4 de junho de 2010

Bullshit: Petroleum

O derramamento de óleo no Golfo do México põe o mundo em alerta. "Primeiro mundo" incluído.


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Petróleo: recurso natural não renovável – (1) característica contestada por alguns –, motor do mundo contemporâneo, quase desde a época da revolução industrial, mas principalmente depois de 1940, aproximadamente. O petróleo move a indústria, os veículos a explosão (carros, ônibus, locomotivas, tratores, navios, aviões) e é usado em usinas termelétricas a diesel para produzir energia elétrica. As usinas termelétricas a diesel são bem conhecidas no Brasil: são aquelas ativadas quando, por uma dessas fatalidades, um parafuso cai da torre de uma rede de transmissão de alta tensão, ou uma ventania derruba uma dessas torres num ponto estratégica e convenientemente difícil de acessar, levando todo o País (e o Paraguai junto) ao apagão.

Voltando ao assunto. O Petróleo é tão importante que uma das regiões onde é produzido em mais larga escala, o Oriente Médio, que no ano 2000 contava com apenas 2,9% da população mundial, é motivo das maiores preocupações "estratégicas" das potências de todo o mundo. Mas essa preocupação já vinha de antes. Toda a transformação dessa área – uma vez pertencente ao Império Otomano – em "países", em estados títeres, estados fantoches, repúblicas fundamentalistas, "reinos" ou simplesmente em "ilhas da fantasia" foi moldada a ferro, fogo e bombardeios pelas potências ocidentais (na cabeça: EUA, Inglaterra e França), mediante invasões, conchavos diplomáticos, guerras artificiais, intervenções salvacionistas etc. Para exemplificar, basta dizer que as famílias reais da área viviam uma frugal e modestíssima vida, em comparação com as cabeças coroadas européias, antes da descoberta e comercialização das "suas" gigantescas jazidas petrolíferas. Não vou citar os nomes das famílias reais, para evitar que fundamentalistas mandem me localizar e matar. Espero que isto seja o suficiente.

Bem, diante da evolução tecnológica, com a possibilidade da utilização de novos materiais e processos para produzir energia, inclusive para os veículos automotores, o uso do petróleo está com os seus dias, quero dizer, décadas, contados. Mas as forças mercadológicas não podem se adaptar, quero dizer, adaptar as suas contas bancárias, de uma hora para a outra a uma mudança de paradigma deste porte; portanto, o processo precisa ser levado paulatinamente. Afinal de contas, a mudança de uso de combustível fóssil para uma diversidade de outras fontes causará impactos econômicos, políticos e sociais. "É preciso" prever e dar curso a esses impactos, e as forças mercadológicas precisam se preparar com muita antecedência... para continuar controlando a situação, é claro. Vou exemplificar: a Alemanha vai produzir mais energia elétrica do que a usina de Belo Monte, quando esta estiver em sua capacidade máxima, simplesmente coletando energia solar. E isso que lá não é um lugar que se possa chamar de "ensolarado". Ou seja, sem impacto em áreas de milhões de hectares habitadas por centenas de milhares de pessoas e berço de inimaginável diversidade biológica e com um investimento de capitais públicos infinitamente menor. Junte os fatos: interesses de grupos no poder + interesses de grupos privados (empreiteiras) + (fundamentalmente) desinformação da opinião pública. Pronto: o “planejamento estratégico energético” de todo um país, de todo um continente, está alinhavado.

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"A ditadura em Mianmar (ex-Birmânia) é financiada com 450 milhões de dólares anuais, desde a década de 1990, pelas petrolíferas Chevron-Texaco (norte-americana) e TOTAL (francesa) e suas respectivas subsidiárias". Informação da Avaaz.

Enquanto isso...

A Petrobras descobre a maior reserva petrolífera prospectada nos últimos 50 anos, localizada no litoral brasileiro, em altíssimas profundidades abaixo do solo oceânico (na chamada camada pré-sal) – música dramática. Diz-que que, quando essas reservas estiverem em sua produção-pico, daqui a 20 anos, o Brasil poderá tranquilamente tornar-se membro da OPEP! Música ufanista. Uau!... Tomara que ainda valha algo ser membro da OPEP nessa época.

A Petrobras se diz (e é reconhecida como) a detentora da melhor tecnologia de prospecção e extração de petróleo em águas profundas do mundo, à frente de gigantes como PetroChina, Statoil e British Petroleum, entre outras. Ótimo. Resta saber qual é o nível de certeza que esta tecnologia de prospecção e extração de petróleo em águas profundas da Petrobras nos garante que não ocorrerá um acidente de proporções gigantescas como o que ocorreu no mês passado no Golfo do México, com liberação ininterrupta prevista, até o momento, de 80 milhões de barris de petróleo nas águas oceânicas. Mas, segundo o professor da UERJ e ambientalista David Zee, em entrevista à Rádio CBN em 1º de junho de 2010, alguns especialistas estimam que este acidente já liberou muito mais de 80 milhões de barris: em verdade, 150 milhões de barris de petróleo já vazaram para o mar. A mancha já está se aproximando das praias da Flórida. O acidente liberou nas águas, até agora, por baixo, o dobro dos 40 milhões de barris de petróleo derramados na costa do Alasca pelo naufrágio do petroleiro Exxon Valdez, na década de 1990, até então tido como (2) o maior de todos os tempos. O acidente foi causado pela British Petroleum, uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, com sede num país de primeiro mundo, aquele lugar onde fica a Harrods. Uma amiga me disse que uma vez estava na Harrods de Londres e na sessão de frutas pensou que estivesse na de decoração, porque as frutas pareciam artificiais, de tão perfeitas que eram; coisas de "primeiro mundo".

Voltando ao assunto...

O acidente poderia ter sido causado por qualquer outra companhia petrolífera, se estivesse aquela, e não a British Petroleum, realizando os trabalhos de extração do "ouro negro" que, nos EUA, suponho, também sejam concedidos por licitação. Ou seja, não é questão de simplesmente pôr em xeque e demonizar a companhia X ou a companhia Y. É questão de questionar a indústria de petróleo como um todo e saber dela quais são as garantias que nos dá de que, de um dia para o outro, de uma hora para outra, a vida marinha, as aves selvagens, a pesca (e a pesca de subsistência), assim como a indústria de turismo de toda uma região do planeta não serão apagadas do mapa por décadas, no mínimo. Há que se levar em conta que, no caso do Brasil, 85% da produção petrolífera é proveniente do solo oceânico.

plataforma P-36 da Petrobras afundando em 2001

Esta questão também deveria ser levada em conta no caso do recente debate sobre a legitimidade ou não do pagamento de royalties sobre o petróleo para os municípios produtores, na maioria litorâneos. Muito embora, diante da remota possibilidade de uma tragédia, mais importante do que receber royalties – para salvaguardar também a possibilidade de derramamentos –, seria ter 100% de garantia (e de certeza) de que não ocorrerão acidentes do mesmo tipo aqui na costa brasileira; no Rio de Janeiro, no Espírito Santo... Já pensou aquela maré negra mortal chegando em Copacabana, Cabo Frio, Marataízes... em Piúma?! Com a palavra, a Petrobras, o Congresso Nacional e a opinião pública.

(1) Alguns discordam de o petróleo ser considerado recurso não renovável e explicam suas teses. Algumas até dignas de investigação.

(2) O maior derramamento de petróleo da História ocorreu durante a Guerra do Golfo. 2,3 BILHÕES de barris de petróleo!! O ambientalista e professor da UERJ David Zee disse isso na entrevista, mas, não sei por quê, a âncora da CBN não deixou que ele completasse o pensamento e mudou rapidamente de assunto, para "a responsabilidade das empresas etc.". Por que será que ela mudou de assunto?? Afinal, foram 2,3 BILHÕES de barris de óleo jogados no meio ambiente por causa do complexo industrial-militar!! Há dias que eu não durmo direito tentando entender por quê a jornalista mudou de assunto; vocês acham que me preocupo excessivamente com detalhes?

Charge: Rob Maia

Imagem plataforma P-36: Photographs taken by Captain Tor-Andre Remøy of the Far Sailor

Desenho: Da Série "Ovo Frito Didático", de  Angelo Polveroso
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