terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pequenos Gandhis
Lincoln Sobral

O que te vêm à mente quando você ouve a palavra "violência"? Talvez um evento mais ou menos distante, como o último assalto seguido de morte sobre o qual você leu no jornal, ou algum protesto, repressão violenta a manifestação ou briga de torcidas organizadas que passou na TV? Estará a violência reduzida a poucas categorias, abrangendo um espectro tão pequeno de eventos dissociados entre si? Vejamos.


O que é a violência?
A violência é o ato de se impor ao outro e produzir-lhe dano ou excluí-lo do todo da sociedade, seja pela força física, seja pela força de armas, seja pelo poder superior de qualquer categoria (exemplos: "poder" psicológico, ou de gênero).

Alguns tipos de violência

A violência de gênero e a violência sexual

A sociedade humana atual é majoritariamente patriarcal (regida por homens). De fato, as mulheres recebem em média salários menores, mesmo que tenham as mesmas atribuições dos homens e realizem trabalhos tão ou mais complicados. Mas, isto não pára por aí. Por mais que se diga que as mulheres estão "crescendo no mercado de trabalho", isto apenas refere-se a um estrato alto de mulheres numa minoria de países; sem levar em conta que as mulheres casadas enfrentam dupla jornada de trabalho, ao ter de se encarregar ('culturalmente') da gestão do lar e dos principais aspectos da vida e da educação dos filhos. Em muitos países as mulheres são coagidas fisicamente e tratadas como objetos de consumo, não tendo poder de decisão sobre o destino de suas vidas. Basta dizer que não existe tráfico de homens para exploração sexual; só de mulheres.

Todo homem que se vale do seu gênero para produzir dano a ou excluir uma mulher exerce violência de gênero; o contrário se aplica às sociedades matriarcais. Desnecessário explicar a violência sexual.

Toda pessoa que discrimina outros em razão de sua opção de exercício da sexualidade ou do seu gênero exerce violência.

A violência étnica (“racial”)

Na sociedade humana atual o "status" está concentrado nos indivíduos que semelham o ser humano caucasiano europeu (por razões históricas) – o ser humano do futuro provavelmente avaliará isto como uma 'curiosidade histórica'. Algumas vezes, os avanços tecnológicos atuais e a sofisticação filosófica ancestral de algumas sociedades orientais causam "espanto" (Japão, China, Índia, Borobudur, Angkhor etc.). Sem falar das sociedades do Oriente Médio, atualmente retratadas grotescamente pela mídia de massas como sendo formadas por bandos de fanáticos religiosos, apesar de terem sido a guarda segura dos conhecimentos da Grécia Clássica para a Idade Moderna e as criadoras e divulgadoras de vários avanços científicos, numa época de conhecimento infantil, quando ainda acreditava-se ser o mundo plano?

Resta à cultura ocidental européia, nestes casos, o artifício da tentativa de mimetizar-se com esses avanços; algumas vezes esta cultura rende-se àquele maior avanço, mas sem antes destacar a contribuição que o Ocidente teve para que aquilo viesse à tona, pelo menos. Difícil será superar na história do mundo o poder de reconciliação sem paralelos que se manifestou durante os julgamentos dos tribunais comunitários ocorridos na Botswana (África) depois dos massacres étnicos ocorridos naquele país na década passada, quando criminosos e vítimas ficavam frente a frente e as vítimas declaravam aos criminosos o seu perdão, diante da comunidade: uma lição para um mundo que vê na retaliação e no castigo o único caminho para superar a violência. Sem falar das sofisticadas relações de amor e lealdade entre famílias e clãs que se mantém há séculos na África, na América Latina e nas ilhas do Pacífico.

Todo ser humano que exerce discriminação contra quaisquer indivíduos em razão da etnia destes diferir da sua exerce violência.


A violência baseada em diferenças socioculturais

Existe uma grande defasagem cultural-educacional (devida a fatores históricos) entre as pessoas, as quais, sem embargo, vivem no mesmo mundo. A ação de dificultar ou impedir o acesso de alguém à educação plena a que tem direito ou de humilhá-lo, rebaixando-o em razão de seus parcos conhecimentos, é violência. Isto é uma violência psicológica que se apóia em diferenças de nível cultural. A ação de ridicularizar a cultura de outrem por quaisquer razões, também é violência psicológica que se apóia na discriminação e no chauvinismo cultural.


A corrupção: violência econômica contra a correta gestão dos recursos do povo

Muitos gestores públicos (chamados de "políticos") exercem violência (seria a grande maioria deles?), ao desviar verbas da educação pública ou utilizá-las intencionalmente mal ou de forma tendenciosa e danosa. Isto se chama corrupção aplicada ao sistema educacional na gestão pública.

A corrupção na gestão pública é um dos nomes específicos para "violência econômica". Embora muitíssimos nomes de formas de violência (quase todos?) possam ser aplicados à "corrupção na gestão pública".

Outras formas de corrupção: desviar verbas da saúde pública; desviar verbas em geral; fazer acordos secretos de uso de recursos públicos em benefício próprio e de privilegiados e / ou apaniguados; negar acesso dos cidadãos a quaisquer detalhes da administração pública que estejam sob a sua responsabilidade; manipular a opinião pública para criar tendências sociais em favor de interesses particulares (corrupção + violência psicológica); destruir, prejudicar, eliminar ou danificar os ativos (humanos e não-humanos) do Estado, tais como: categorias profissionais, bancos de dados e instalações públicas (entre muitos outros), com o objetivo de prejudicar o governo subseqüente de um partido político opositor na implementação do seu programa de governo – não sei se qualificar isto apenas como "violência" seria o suficiente. Financiar obras e melhorias com o único objetivo de repassá-las à administração privada posteriormente (geralmente, a preços subfaturados), para gerar lucros para uma minoria empresarial. Corrupção passiva derivada da corrupção na administração pública: receber pagamento direto ou indireto de gestores públicos para dar-lhes visibilidade na mídia; receber benesses de gestores públicos para atacar ou denegrir a imagem dos seus adversários (leais ou desleais) – ambas com a finalidade de perpetuar o poder do corruptor.

A violência contra a infância e a violência entre gerações

As crianças são infinitamente mais frágeis que os adultos e os adolescentes bastante mais frágeis (pelo menos psicologicamente, na maioria dos casos). Todo adulto que, valendo-se da sua superioridade física, psicológica, ou de posição social (por exemplo: um diretor de escola) castiga fisicamente ou humilha psicologicamente uma criança ou um jovem, exerce violência, seja pai daquela criança, ou não. Negar ao jovem (e à criança) a possibilidade de expressão das suas necessidades, inquietudes, objetivos e desejos também é violência. Várias vezes, adolescentes e jovens agem violentamente contra a própria família – ápice do 'retorno' da violência. Certamente, essas ações acontecem como resposta irracional a uma situação limite anterior de violência sofrida ou de exposição destituída de senso crítico a um sistema social violento. A criança e o jovem tratados com o respeito, atenção, dedicação e o amor que a todo ser humano é devido, certamente jamais exercerão violência, de vez que não haverá o que retornar proveniente desta doença social – descartados os casos patológicos, que deveriam ser corretamente identificados como sendo realmente pertencentes a esta categoria e individualmente cuidados.

O ato físico ou psicológico violento contra uma criança ou contra um adolescente é violência. O retorno do ato físico ou psicológico de violência de uma criança ou adolescente contra um adulto é violência. Todos estes atos constituem violência entre as gerações.

A violência Religiosa

Na história da humanidade existiram e existem milhares de credos religiosos: teístas, politeístas, agnósticos; existem também credos ateístas (crēdō = "eu creio", latim). Todos estes credos têm alguma(s), várias, muitas (às vezes muitíssimas) variações e subtendências. Entretanto, até os dias de hoje, desde que o ser humano construiu o primeiro alinhamento de monólitos para realizar cerimônias religiosas baseadas nas posições dos astros, ninguém provou sem sombra de dúvida a existência de Deus, apresentando dados tangíveis – quero dizer, ninguém chamou os outros e lhes disse: "vejam, aqui está Deus", mas com a subseqüente visualização de Deus pelos outros, ou seja, um testemunho coletivo em grande escala e que pudesse ter sido gravado para posterior reprodução para qualquer um que desejasse vê-lo; e que tivesse sido transmitida uma mensagem aceita universalmente por todo e qualquer ser humano como uma verdade última. Tampouco alguém provou de forma incontestável a não-existência de Deus. Para fazer isto, seria necessário, primeiramente, definir os parâmetros para que tal prova fosse validada.

Discriminar o outro em razão de sua crença ou não em Deus, do seu ateísmo ou da sua pertinência a um credo religioso diferente do nosso é violência; isto se chama violência religiosa.

A violência econômica

A exploração econômica dos demais é violência. A violência econômica está no cotidiano da humanidade. A violência econômica dificulta enormemente ou impede o desenvolvimento igualitário das pessoas, fazendo crescer a variedade e a diversidade de violências. É necessário identificar todas as formas de violência econômica e dar-lhes visibilidade, primeiro passo para que se possa fazer algo para saná-las e / ou evitar que venham a ocorrer em qualquer futuro, próximo ou distante.

Algumas formas de violência econômica (sem prejuízo de todas as outras): pagar subsalário, incentivar o subemprego ou a atividade degradante, excluir pessoas de benefícios sociais, escravizar pessoas, manter pessoas em condição análoga à escravidão, roubar, furtar, desviar o que ao outro pertence, cobrar juro imoral, apropriar-se de bens, pertences e propriedades de terceiros (e de países e de suas partes), ser conivente com a exploração de pessoas, receber propina enquanto no governo para facilitar a exploração econômica de indivíduos e coletividades... Talvez o seu ápice individual seja o latrocínio (violência econômica + violência física), e o seu ápice social seja o genocídio de todo um povo ou coletividade com vistas à apropriação de seus recursos. A lista pode beirar ao infinito.

*CONCLUSÃO (do artigo, não sobre o tema da violência)

Existem muitos tipos e subtipos de violência e possibilidades variadíssimas de interseção entre eles. Diante de todo o explicado (que não abrange toda a violência, mas mostra apenas alguns poucos dos seus aspectos principais e os analisa, conseqüências inferidas), vemos que a violência não é algo distante ou quase próximo que acontece apenas aos outros e é informado nos meios de comunicação. E, muito menos, que tem somente um aspecto físico. A violência é múltipla e acontece na vida de todos nós, seja como vítimas, seja como autores. A violência é um modo de vida moldado por um Sistema social completo; o valor central deste Sistema não é o ser humano, mas sim o dinheiro, que pode comprar objetos e status social. Este Sistema trata de justificar toda a violência como sendo algo “inerente à natureza humana”, dizendo que é impossível superá-la e criando descrença nas pessoas quanto ao futuro, o que é uma mentira tendenciosa e manipuladora.

¹A violência pode ser superada. Para isto, precisamos avaliá-la corretamente e fazer um plano com este objetivo.

Entretanto, demais seria esperar de nós mesmos que tivéssemos de realizar um trabalho pela Não-Violência do porte do que fizeram Gandhi, Martin Luther King Jr., Tolstói (místico e escritor russo), Silo (fundador do Movimento Humanista - 1969), pessoas que dedicaram suas vidas a entender e ajudar a superar a violência no mundo. Mas, com absoluta certeza, sem sombra de dúvida, podemos ser pequenos Gandhis: 'o Gandhi da minha família'; 'o Gandhi do meu trabalho', 'o Gandhi da minha escola', 'o Gandhi do meu bairro'...

Vamos aproveitar a Marcha Mundial pela Paz e a Não-Violência e deixar surgir o pequeno Gandhi que vive dentro de nós e estava sonolento ou adormecido. O futuro pede por isto. Ainda existe futuro.

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¹Para colaborar com este objetivo, aqui ficam propostas algumas perguntas (a serem formuladas a si mesmo e, de preferência, no silêncio de uma meditação particular) e uma sugestão:

Perguntas:

• Consigo identificar plenamente alguma violência que sofri ou sofro, mas que até agora eu não havia identificado como sendo "violência"?
• De fato, perguntando a mim mesmo com sinceridade interna, estou também envolvido na geração da violência?
• Eu me interesso pela violência sofrida por outros ou apenas me importa a violência que sofri ou sofro?
• Qual é o meu poder de alcance para deter a violência, em quaisquer de suas formas, afetando-me ela particularmente ou não?
• Eu quero ajudar a superar a violência em mim mesmo e ajudar a superar a violência na sociedade?
• O que farei para lançar mão do meu poder de alcance e ajudar a deter a violência (o que pode ser um trabalho comunitário, mais além de uma iniciativa individual ou na vida privada)?
• Vou fazer isto agora, deixá-lo para mais tarde, ou adiá-lo indefinidamente?

Sugestão:

Conhecer, pesquisar sobre e entender e aplicar a Metodologia da Não-Violência, que vem a ser, numa visão geral:

“A Metodologia da Não-Violência é o repúdio, a denúncia, a não colaboração com as práticas violentas e o exercício concreto no cotidiano da atitude não-violenta, por razões inerentes à própria existência e ao desenvolvimento da vida em geral.”

*Este artigo está sob revisão permanente.

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Imagem: crianças em atividade da metodologia da não-violência da Fundação Da Vinci, criada pelo Movimento Humanista, em escola pública de Mendoza (Argentina)

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